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A ascensão do Brasil como uma grande potência mundial mudou o equilíbrio entre a Europa e a América do Sul.
Arranca esta noite em Madrid a VI Cimeira União Europeia-América Latina e Caribe, onde vão estar presentes quase todos os chefes de Estado e de governo dos 60 países da região. Com este encontro, a presidência espanhola da União quer um resultado "histórico" que permita relançar os laços comerciais entre os europeus e os latino-americanos, em particular no reinício das negociações com a associação de livre comércio sul-americana Mercosul (que inclui o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), que estão suspensas desde 2004.
"Temos que admitir a verdade: as coisas não estão a correr bem entre a UE e a América Latina. As relações entre os dois lados não estão a sair dentro das expectativas, nem a atingir o seu potencial. Com excepção de Portugal, Espanha e até um certo ponto a Itália, os europeus têm ignorado a América Latina nos últimos anos", afirmou o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, Miguel Ángel Moratinos.
Brasil em destaque
Uma das grandes novidades desta cimeira é o crescimento da influência do Brasil, em particular do presidente Lula da Silva, na política mundial. O facto da economia brasileira estar em forte crescimento ao mesmo tempo que as economias europeias estão em dificuldades tem permitido ao chefe de Estado brasileiro exercer uma forte influência sobre a cimeira. Lula da Silva tendo liderado os seus aliados sul-americanos numa ameaça de boicote à cimeira, caso o presidente hondurenho Porfírio Lobo assistisse ao evento, uma vez que este subiu ao poder após um golpe de estado que derrubou o presidente Manuel Zelaya, amigo de Lula. Ameaçada com a possibilidade de um embaraço diplomático, a presidência espanhola da UE acabou por marcar uma cimeira América Central-União Europeia, de modo a permitir um encontro separado entre o presidente Lobo e os responsáveis europeus.
O governo brasileiro diz que Lula vem para Madrid com a expectativa de obter um acordo "compreensivo, ambicioso e equilibrado" entre a União Europeia e o Mercosul, mas coloca como pré-condição uma redução das tarifas agrícolas da Europa. Já os europeus querem que os países do Mercosul cobrem menos tarifas sobre os produtos industriais. Os analistas notam, contudo, que a cimeira não deverá produzir resultados tangíveis, uma vez que não só a França se opõe ao reinício das conversações, mas também a Argentina quebra frequentemente os acordos com que se compromete com os seus parceiros do Mercosul.
Portugal aposta na economia
O primeiro-ministro português, José Sócrates, bem como o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, também participam na cimeira, tendo chegado ontem à capital espanhola. A economia é o principal item na agenda de Sócrates, que esteve já presente na cimeira empresarial UE-América Latina e Caribe que se realizou no domingo, e estará hoje presente no fórum ABC, um almoço-debate com empresários espanhós. Sócrates estará também presente esta noite no jantar oficial oferecido pelo Rei Juan Carlos de Espanha. O governo adianta ainda que outro dos assuntos na agenda de Sócrates é a eventual candidatura de Portugal a um lugar não permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Investidores portugueses preferem o Brasil
O investimento português no Brasil representa quase 100% da totalidade aplicada na América Latina.
As empresas portuguesas iniciaram tardiamente o seu processo de internacionalização para a América Latina. Só em 1995 os investimentos portugueses desencadearam uma trajectória consistente de internacionalização.
Mas os valores estão a mudar. Segundo os dados da Aicep, entre Janeiro e o final de Fevereiro de 2010, o investimento português nos mercados do Brasil, Venezuela, México e Argentina, ascendeu a 2.234 milhões de euros. Em 2007, o investimento bruto de Portugal nos países da América Latina rondou os 590 milhões de euros com o Brasil a representar 567 milhões, seguido a grande distância pelo Uruguai, o Peru, a Guatemala, o Chile, a Argentina, a Venezuela, Colômbia, México e a República Dominicana.
Apesar do mercado brasileiro dominar os investimentos portugueses, destaque-se, no plano energético, a participação da Galp Energia e da Partex no âmbito do processo de exploração das vastas reservas de petróleo e gás natural. Recorde-se a experiência do sector hoteleiro português, em particular do Grupo Pestana, que para além da sua implementação no Brasil, marca presença na Argentina (Buenos Aires) e na Venezuela (Caracas).
O Grupo Imocom também aposta na Argentina enquanto o Grupo Amorim opera, em parceria com a Accor, em Cuba.
Também os investimentos no sector agro-pecuário já alcançaram uma posição de relevância no Paraguai, através do Grupo Espirito Santo, que coloca Portugal como o principal investidor europeu naquele país. E a indústria farmacêutica nacional encontra-se bem instalada no Peru (Atral-Cipam e Lusogframa).
Por outro lado, às empresas de obras públicas, solidamente instaladas no mercado brasileiro, têm sido atribuídos importantes contratos na Venezuela (consórcio Teixeira Duarte - Mota Engil).
Os portugueses marcam ainda presença na América Latina com investimentos de produção de papel e desenvolvimento florestal no Uruguai (Portucel), de aquacultura em Cuba (Grupo Amorim), da Portugal Telecom no Brasil no âmbito da operadora Vivo, sem esquecer as operações da Cimpor, nomeadamente no Brasil e Peru e inauguração pela Efacec de um centro de componentes na Argentina. Realce-se também o papel da EDP em matéria de distribuição de electricidade na Guatemala.
Fonte: Pedro Duarte e Carlos Caldeira, Diário Económico In: Portugalnews
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