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Home / Noticias / Brasil acelera investimento em África e procura parceiros.4.Set.2010
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
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Brasil acelera investimento em África e procura parceiros.


Os recursos do Brasil e o seu 'know-how' na indústria alimentar encaixam perfeitamente no mercado angolano.


A mineira brasileira Vale vai começar a operar em Moçambique e é apenas mais um exemplo da lança que a maior economia da América do Sul quer colocar em África, mais concretamente na corrida aos recursos naturais do continente.

 

A cidade remota de Tete, no coração de Moçambique, é uma das maiores reservas de carvão do mundo e, como tal, ponto de encontro de trabalhadores migrantes e de empresários, ávidos de aproveitarem as oportunidades associadas ao gigantesco investimento brasileiro. Tete tornou-se numa cidade próspera e promissora, e as infra-estruturas são constantemente postas à prova pelo fluxo de visitantes em busca de negócios e de emprego. "De cada vez que lá vou, as coisas complicam-se. É uma cidade pequena que ainda está a aprender a gerir uma forte expansão. Joanesburgo devia ser algo parecido durante a corrida ao ouro", desabafa António Coutinho, banqueiro sul-africano e um dos financiadores do projecto que quer tornar a economia moçambicana menos dependente de ajudas externas.

 

A entrada em cena da Vale é a prova cabal do crescente interesse do Brasil por África. Os laços comerciais da China e da Índia com o continente africano encontram-se mais desenvolvidos e têm dado muito que falar. A entrada do Brasil no mercado africano não difere muito dos padrões de actuação dos parceiros comerciais tradicionais do continente no Ocidente quando competem com um leque de mercados emergentes pelos seus recursos e influência.

 

Lula da Silva, presidente do Brasil desde 2003, visitou o continente seis vezes no seu primeiro mandato. As trocas comerciais cresceram rápida e substancialmente, em grande parte devido à forte procura de matérias-primas. As importações de África passaram de 3 mil milhões de dólares (€2,18 mil milhões) em 2000 para 18,5 mil milhões (€13,4 mil milhões) em 2008. Países como a Nigéria, a Argélia e Angola têm um lugar-chave nas importações de petróleo. Os produtores de bens alimentares brasileiros, extremamente competitivos, encontraram mercados alternativos no continente, como o Egipto, e conseguiram aumentar oito vezes as suas exportações, passando de mil milhões (€728 milhões) em 2000 para 8 mil milhões de dólares (5,8 mil milhões) em 2008.

 

A construtora brasileira Odebrecht é o parceiro da Vale em Moçambique no desenvolvimento das reservas de carvão, na construção de uma central eléctrica e de infra-estruturas portuárias e ferroviárias para colocar novamente esta matéria-prima no mercado exportador. A mina situa-se em Moatize e o início das escavações está previsto para o final deste ano. O investimento inicial deverá rondar 1,3 mil milhões de dólares (€948 milhões), mas fontes próximas dizem que o valor final será muito superior a este.

 

A Vale e a Odebrecht não são as únicas empresas brasileiras com operações em Moçambique. Há dois meses, o maior produtor de aço do Brasil, a CSN, comprou 16,3% da mineira australiana Riversdale, onde a indiana Tata Steel detém uma participação substancial. Tete também está na mira da empresa indiana, que traçou um plano de investimento para a região na ordem dos milhares de milhões de dólares.

 

A Odebrecht é hoje o maior empregador do sector privado em Angola e as suas operações abarcam áreas tão diversas como a produção de aumentos e etanol, serviços, fábricas e supermercados. Os executivos da empresa têm acesso directo ao presidente angolano, José Eduardo dos Santos. A petrolífera brasileira Petrobras, uma empresa controlada pelo estado, também está presente em Angola devido ao seu 'know-how' na exploração de petróleo em águas profundas.

 

Os laços linguísticos e culturais entre os dois países contribuíram para tornar o modelo de desenvolvimento brasileiro especialmente apelativo em Angola e Moçambique, tal como os laços históricos com a África lusófona, já seculares. Cerca de 1,4 milhões dos 3 milhões de escravos africanos levados para o Brasil entre 1700 e 1850 eram angolanos. Na década de 1820, muitos colonos de Angola e Moçambique, bem como doutras colónias portuguesas, requereram autorização para se mudarem para o Brasil, que acabara de conquistar a sua independência.

 

Um dos êxitos mais recentes do país foi a redução da pobreza. O modelo assenta em medidas sociais, sobretudo na área da Educação e da Saúde, e já despertou a atenção de outros países. "No fundo revêem-se em nós porque já passámos por situações semelhantes no passado e porque soubemos adaptar a tecnologia aos problemas locais. Olham para o Brasil como um modelo que podem imitar", explica um diplomata brasileiro a residir em Maputo.

 

O investimento das empresas brasileiras no continente africano desde 2003 é relativamente modesto - cerca de 10 mil milhões de dólares (€7,2 mil milhões) -, mas tudo indica que isso vai mudar muito rapidamente. O governo tem dado o tudo por tudo para persuadir as empresas brasileiras a investir em África, especialmente desde a eleição de Lula da Silva em 2003. O presidente não só tem promovido a expansão da rede de embaixadas em África como tem integrado dezenas de empresários nas comitivas que o acompanham a cada visita ao continente. O peso do Brasil é tal que, em Julho, Lula foi convidado de honra no encontro da União Africana realizado na Líbia.

 

Os analistas do Standard Bank, em Joanesburgo, dizem que os recursos do Brasil e o seu 'know-how' ao nível da indústria alimentar encaixam perfeitamente nas oportunidades que Angola oferece, e que as alterações climáticas vão fazer com que os investimentos brasileiros em África cresçam ainda mais. A subida da temperatura no Brasil pode reduzir a terra cultivável e levar os produtores de alimentos e etanol a expandir-se para o continente africano, em particular para países onde há terrenos disponíveis em abundância, como em Angola. Para o analista Jeremy Stevens, "o Brasil está a posicionar-se para ser o principal parceiro do continente a fim de garantir a sua segurança alimentar e energética".

 

No caso das multinacionais brasileiras, os pontos fortes do continente são muito claros. "África é o futuro dos recursos naturais mundiais, lado a lado com a América do Sul. Não há dúvidas sobre isso", realça Roger Agnelli, presidente e CEO da Vale.

 

A chegada dos BRIC a África

 

Lula da Silva já passou à frente do presidente chinês, Hu Jintao, no número de carimbos de entrada em países africanos. Desde que assumiu o cargo, em 2003, Lula já visitou 19 países em oito deslocações ao continente. Por ora, porém, a China continua a ser o principal investidor dos BRIC em terras africanas. O valor das trocas comerciais entre África e a China cresceu de 4,1 mil milhões de dólares (€2,9 mil milhões) em 1992 para 107 mil milhões de dólares (€77,3 mil milhões) em 2008, o que faz do continente o seu segundo principal parceiro comercial a seguir aos EUA. As empresas chinesas têm investido de uma forma agressiva nos recursos naturais africanos, com especial destaque para o petróleo.

 

Como bloco, as trocas comerciais entre os BRIC e África passaram de 4,6% em 1993 para mais de 19% em 2008. Os economistas do Standard Bank estimam que, em 2030, perto de 50% do comércio africano será feito com os BRIC.


Fonte: Richard Lapper, Editor América Latina Financial Times, tradução An a Pina, Diário Económico
In: portugal news





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